quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Métodos de Recolha de Dados III - A Entrevista

A par dos questionários, as entrevistas são outra forma de recolher dados numa investigação e apresentam algumas diferenças.
Contrariamente ao uso dos inquéritos por questionário, as entrevistas são morosas em termos de tempo, pois como diz Judith Bell (1997):

As entrevistas consomem tempo. Num projecto de 100 horas só poderá, por isso, entrevistar um número relativamente pequeno de pessoas. (pág. 118)

Enquanto os inquéritos por questionário podem estar a ser distribuídos em simultâneo a várias pessoas, podendo assim ser aplicados a um universo de indivíduos significativamente maior, cada entrevista é personalizada e pode demorar mais tempo. Porém, como Bell salienta:

A forma como determinada resposta é dada (o tom de voz, a expressão facial, a hesitação, etc.) pode fornecer informações que uma resposta escrita nunca revelaria. (…) uma resposta numa entrevista pode ser desenvolvida e clarificada. (pág. 118)

Precisamente por ser possível desenvolver e clarificar as respostas, a preocupação com a ambiguidade das questões deixa de se colocar de modo tão imperioso, pois o entrevistador pode sempre, em tempo real, esclarecer o que pretende com determinada pergunta. No entanto, deve evitar a tentação de orientar a resposta ou dar pistas, pois isso comprometeria a fiabilidade da mesma.
Segundo Andrew Hannan (2007), as entrevistas têm como vantagens:

· giving informants the chance to challenge the agenda set by the researcher, raising new issues, asking questions back;
· collecting qualitative data, ie allowing the researcher to probe the meanings interviewees give to their behaviour, ascertaining their motives and intentions;
· giving informants the opportunity to check what is meant by a question;
· allowing for long and complex responses;
· flexibility - making possible changes in the order of questioning, the questions asked and the topics discussed;
· probing - follow-up questioning seeking clarification or further explanation;
· in-depth inquiry.

Claro que existem contrapartidas, tal como o autor salienta:

· standardising procedures - it's all too easy to change the way a question is put from one interview to the next, or for one interviewer to differ from another in the way the same topic is raised, thus making it difficult to know that all the responses have the same stimulus;
· comparability - flexibility brings dangers in that the same topics may not be addressed or may be addressed in a different order thus making comparisons difficult;
· objectivity - the interviewer may lead the respondent, shaping responses through the tone in which questions are asked, non-verbal clues (eg nodding the head) and sighs of affirmation or gasps of incredulity;
· simplicity - the responses may become so complex as to make analysis very difficult if not impossible;
· large numbers - given the time interviews take it is difficult to survey large numbers of respondents;
· anonymity - hiding identities is not possible, in so far as the informant is revealed to the researcher in face-to-face meetings;
· 'facts' - they don't always tell us about what happens (practice), they are better as a means of exploring reasons and interpretations than as a way of finding out what actually takes place.

Independentemente das vantagens e desvantagens de ambas as técnicas, quer os questionários, quer as entrevistas obedecem aos mesmos procedimentos e cuidados na abordagem dos temas, na preparação das questões e posterior tratamento dos dados.

Mas como saber qual o formato de entrevista adequado a determinado tema?

Segundo Peter Woods (2006), a técnica da entrevista é qualitativa, embora possa assumir um carácter formal. Para este autor, a entrevista pode ser estruturada ou livre*, consoante aquilo que se pretende investigar ou saber:

If interviews are going to tap into the depths of reality of the situation and discover subjects' meanings and understandings, it is essential for the researcher:
· to develop empathy with interviewees and win their confidence;
· to be unobtrusive, in order not to impose one's own influence on the interviewee.
The best technique for this is the unstructured interview. Here, the researcher has some general ideas about the topics of the interview, and may have an aide memoire of points that might arise in discussion for use as prompts, if necessary. But the hope is that those points will come up in the natural course of the discussion as the interviewee talks. Care is needed, therefore, to avoid leading questions or suggesting outcomes, and skill is called for in discovering what the interviewee really thinks.

Para Woods, a entrevista livre* aplica-se mais a situações em que o entrevistador pretende conhecer significados, perspectivas ou representações dos indivíduos, consistindo numa entrevista sem uma estrutura rígida ou definida sem, no entanto, se perder “o fio à meada”, pois o risco de se esperar que os tópicos a abordar surjam espontaneamente na conversa descontraída pode levar a um diálogo que foge ao cerne da investigação.
Nesse sentido, Woods acaba por defender que o ideal é a condução de entrevistas semi-estruturadas, pois:

it may be that the researcher begins with a more focused study and wishes to know certain things. In these cases a structured interview might be more appropriate. Here the researcher decides the structure of the interview and sets out with predetermined questions. As with systematic observation, this is less naturalistic. Within the spaces, the same techniques as above might apply, but there is clearly not as much scope for the interviewee to generate the agenda. For this reason, some researchers use semi-structured interviews - interviews which have some pre-set questions, but allow more scope for open-ended answers.
Both kinds of interview might be used in the same research. For example, the initial stage of a project might be exploratory and expansive. But once certain issues have been identified, the researcher might use more focused interviews. They are still grounded in the reality of the situation.

Toda a entrevista deve obedecer a um plano ou guião orientador. Nesse sentido, e de acordo com Alcino Simões (s/d), é importante ter em conta:

1. Descrição do perfil do entrevistado (nível etário, escolaridade, nível socio-cultural, personalidade,...);
2. Selecção da população e da amostra de indivíduos a entrevistar;
3. Definição do propósito da entrevista (tema, objectivos e dimensões);
4. Estabelecimento do meio de comunicação (oral, escrito, telefone, e-mail), do espaço (sala, jardim) e do momento (manhã, duração);
5. Discriminação dos itens ou características para o guião;
5.1. Elaborar perguntas dos itens, de acordo com o definido nos pontos anteriores;
5.2. Considerar as expectativas do entrevistador;
5.3. Considerar as possíveis expectativas dos leitores/ouvintes;
5.4. Formular perguntas abertas (O que pensa de...?) e fechadas (Gosta de...?);
5.5. Evitar influenciar as respostas;
5.6. Apontar alternativas para eventuais fugas à pergunta;
5.7. Estabelecer o número de perguntas e proceder à sua ordenação, dentro de cada dimensão;
5.8. Adequar as perguntas ao entrevistado, seleccionando um vocabulário claro, acessível e rigoroso (sintaxe e semântica);
6. Produção do guião com boa apresentação gráfica;
6.1. Redigir o cabeçalho com identificação (instituição, proponentes, título, data)
6.2. Incluir uma apresentação sucinta da entrevista, incluindo os objectivos.

*(optei pela tradução do vocábulo inglês unstructured por livre, pois pareceu-me que a tradução literal por desorganizada ou desestruturada seria conotada com um sentido negativo, o que estaria em claro desacordo com o apresentado pelo autor)

Bell, Judith, Como Realizar um Projecto de Investigação, Lisboa, Gradiva, 1997

Hannan, Andrew, Interviews in Education Research, Faculty of Education, University of Plymouth, 2007 (http://www.edu.plymouth.ac.uk/resined/interviews/inthome.htm#1)

Simões, Alcino, (1998-200?). Como realizar uma entrevista passo-a-passo. http://www.prof2000.pt/users/folhalcino/ideias/comunica/entrevista.htm

Woods, Peter, Qualitative Research, Faculty of Education, University of Plymouth, 2006
http://www.edu.plymouth.ac.uk/resined/Qualitative%20methods%202/qualrshm.htm#Interviews

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